>> 27 de fevereiro de 2012 ás 14h37

O legado do duo As Marcianas

O SertanejOnline entrevistou uma das duplas femininas pioneiras da música sertaneja

 



Quem acompanha a linha do tempo da música sertaneja provavelmente se lembra de uma dupla que apareceu nos anos 80, quando o gênero apostava na linhagem mais romântica, trazendo duas mulheres nos vocais. 


Filhas de João Mineiro, antiga dupla de Marciano e atual com Mariano, Celina e Ivone continuaram a cultura musical comum para a família, com o nome de As Marcianas. Juntas, as irmãs ganharam o primeiro Disco de Ouro e de Platina para uma dupla feminina na história da música sertaneja. 


Após algumas mudanças de formação, no final de 2003, Adriana apareceu para acompanhar Celina nos vocais. Hoje, a dupla tem 28 anos de muita história pra contar e novidades para dividir. 


SertanejOnline entrevistou As Marcianas. Na verdade, foi um verdadeiro bate-papo, bem descontraído, no qual Celina e Adriana contaram para o site a história da dupla, sobre um novo DVD que já está pra sair e a respeito da emoção de contar com fãs fieis... 


SertanejOnline – Quais são as maiores influências da dupla na música?


Celina – Eu sou filha do João Mineiro, da dupla João Mineiro & Marciano, que é o João Mineiro e Mariano hoje. Então, tem muita gente que mistura. Na realidade, não tem nada a ver. Claro que a gente gosta, deve ser de sangue mesmo, de família. Eu nasci numa família de artistas, já que minha mãe também cantava. 


Só que tudo o que nós conseguimos com As Marcianas, nesses 28 anos de carreira (oito anos com a Adriana), foi praticamente nosso trabalho, com muito sofrimento. Foi muito difícil, até porque naquela época já não acreditavam nas mulheres, imagine nas duplas. 


O Marciano, primeiro parceiro do meu pai, me deu uma força muito grande, não posso negar. Inclusive como compositor, um dos melhores que nós temos, fez músicas especiais para nós e até mesmo cantou e participou. E não foi uma vez só não, foram várias. 


Então, influência de pai para filho, não. Agora, eu sempre gostei porque está no sangue também porque a gente nasceu no meio da música. Quem nos ajudou mesmo – fazendo coisas escondidas junto com a gente e dando ideias no ensaio e em repertório – foi o Marciano, sem dúvida. E eu me orgulho muito disso.  


SertanejOnline – Vocês sofreram preconceito pelo fato de formarem uma dupla de mulheres?


Celina e Adriana – Até hoje. 


Celina – Inclusive, quando nós fomos gravar o nosso primeiro trabalho, gravadora nenhuma acreditou na época. A gente foi escondida porque meu pai não aceitou. As pessoas achavam que a gente queria gravar porque éramos filhas de artistas, na época em que eu cantava com minha irmã Ivone. Eles diziam que nós queríamos gravar para mostrar disco para vizinhos e deixar na estante. Mas era uma coisa da gente mesmo, sabe? 


A gente tem uma história muito grande. Hoje se fala muito em teatro, naquela época sempre foi o circo. Era a maior escola que um artista tinha, principalmente da música. Nós cantamos mais de 15 anos em circo. Então a gente queria mostrar que a gente gostava e tinha aquilo no sangue. 


Adriana – Às vezes cantavam até escondido, né? 


Celina – É verdade, cantávamos escondido. A Adriana lembrou bem. E naquela época, quem frequentava nossa casa era Tião Carreiro & Pardinho, Sulino & Marrueiro, Zico & Zeca, Vadico & Vidoco... 


Hoje, está aí o sertanejo universitário com tudo. A gente ainda não gravou nada universitário. Mas da música sertaneja, com os modões e o sertanejo romântico, que foi quando nós aparecemos, sim. Então a gente vem desde esta época, trazendo uma bagagem de trinta e tantos anos. 


Quando a gente gravou o primeiro trabalho, pra você ser considerado um profissional, tinha que ter um bom repertório e uma gravadora. E foi difícil, nós demoramos muito para conseguir, mas graças a Deus conseguimos. E faz hoje 28 anos que a gente é considerada profissional da luta. 


Hoje mudou muito. Não tem mais divulgador ou empresário, existe o investidor, que pega você e banca alto, não é barato não. Amanhã você já é sucesso, mas ele quer algum retorno daquilo. 


E no nosso caso, não. Você tinha que mostrar porque você estava ali. Era a época que você tinha que fazer testes para saber se sabia cantar ou não. Eu fiz teste. E hoje até quem não sabe cantar é sucesso. Tem muita gente boa, mas tem muito mais os que deixam um pouco a desejar. 


Adriana – Tem muitos também que, na realidade, acordam e dizem “Vou cantar!”. Se você tiver uma pessoa que te banque, no outro dia já é sucesso. 


Celina – Hoje em dia, a mídia está muito fechada. Mas nós tivemos abertura não só nos programas sertanejos. Qualquer programa de televisão e rádio sempre recebeu As Marcianas. Sempre, graças a Deus, acreditaram no nosso trabalho e deram espaço para nós. Gostaria até de aproveitar para agradecer. 


Sabe? Nós estivemos em Goiás, lá em Pirenópolis, quando chegou um rapaz e eu passei o microfone pra ele. Quando ele abriu a boca pra cantar, me arrepiei. Ele canta muito! E aquilo me deu dó, me deu vontade de chorar porque ele estava precisando uma oportunidade. Tem muita gente boa precisando de espaço. 


O que está acontecendo é que não tem mais história e a gente precisa disso. Da nossa época pra cá, a gente tem músicas que têm história, que jamais poderíamos tirar do nosso repertório. Às vezes, nós ficamos até enjoadas, mas não adianta: é uma história. Hoje mudou, não tem mais aquele sentimento, o músico não é mais como antigamente, como Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Milionário & José Rico, Rick Sollo, Ataíde & Alexandre... 


Adriana – Esses continuam apaixonados, né? Parece que hoje não tem mais amor também. 


Celina – Não tenho nada contra. Isso é o que eu conheci da música. Então, é uma pena, mas tudo bem.


SertanejOnline – Para a dupla e para os fãs, qual música não pode faltar na setlist?


Celina – São muitas. Do primeiro disco que nós gravamos, que falávamos que era um cartão de visita, temos a música “O Mesmo Homem”, “Sedução” e “Raízes”. Depois, veio o outro que tinha “A Nossa Melodia Preferida”, que rendeu o primeiro Disco de Ouro e de Platina para uma dupla feminina, por vendagens – a primeira na história da música sertaneja. Temos também o prêmio Sharp, Canário de Ouro e vários outros prêmios. 


Dentro do disco que tem “A Nossa Melodia Preferida” também tem “Carreta Feiticeira”, “Minha Cama Sabe”, são várias músicas. Essas músicas são de 1986 para 1987. Cada trabalho nosso, que eram de vinil na época, não podem deixar de fazer parte dos shows até hoje. 


E depois veio “Fim de Semana”, “Marcas”, “Nosso Bolero”. Nos anos 90 teve “Por Que Brigamos?”. Em meados de 1987, a visitava muito o cantor e compositor Carlos Cezar, da dupla Carlos Cezar & Cristiano, com quem aprendi muita coisa. Quando a gente passava pela Avenida Rio Branco, tinha um mendigo e ele sabia que a gente cantava e pedia pra gente gravar “Por Que Brigamos?”, da cantora Diana. Mas a parceira que estava comigo não gostava. E quando ela decidiu sair da dupla para seguir carreira solo, nós já éramos conhecidas e já tínhamos o Disco de Ouro. Então, eu regravei a música da Diana. Estourou. 


Outras também como “Nossa Melodia”, “Vou Te Amarrar na Minha Cama”, “Dominique”... Inclusive neste novo trabalho, que saiu há dois meses, a gente teve que fazer uma nova roupagem e colocar “Dominique” e “Nosso Bolero”.


SertanejOnline – Como aconteceram as mudanças de formação da dupla?


Celina – Tudo começou com a minha irmã, a Ivone. Ela decidiu parar e seguir carreira solo. Mas eu criei o nome As Marcianas, então ela seguiu com outro nome e eu continuei com a dupla. Aí entrou a Geise, que até então eu não conhecia, uma cantora solo que já era muito conhecida na época pelo Paraná. Ela entrou n’As Marcianas no final 1989 e ficou comigo até 1995, porque teve uma fase na vida dela em que ficou viúva e infelizmente parou de cantar. 


Então eu segui com a Elaine, também do Paraná. Fiquei até praticamente 2000. Mas aconteceram algumas coisas relacionadas a um sequestro e fiquei meio abalada, entrei em depressão e não queria cantar. Mas sabe, ninguém deixa. Fiquei praticamente um mês parada. E aí o Raí, da dupla Régis & Raí, muito amigo da gente, me ligou e disse “Não, você não vai parar”. Quando foi 2003 pra 2004, ele me falou que conhecia uma pessoa muito legal e me apresentou a Adriana, que graças a Deus está aqui hoje com a gente. 


Adriana – Graças a Deus estamos aí. Eu tenho muito orgulho de estar com a Celina, que é uma pessoa muito forte. Desde pequena minha família sempre gostou de música. Então a gente vai pegando o jeito do negócio. 


Mas olha, eu não esqueço uma coisa. No dia em que eu cheguei na casa da Celina, pela primeira vez, ela estava de costas na pia. Quando eu a cumprimentei ela olhou séria, porque é o jeito dela, e falou: “Você achava que artista não lavava louça, né?”. E eu respondi: “Bom, se não puder eu já estou voltando”. 


E nós estamos fazendo um trabalho muito legal, e esse ano de 2012 vai ser muito bom pra gente, se Deus quiser. Gravamos um DVD agora... 


Celina – Aliás, gravamos na cidade da Adriana, em Cajuru (SP). Foi muito bonito. Com participações de Jair Rodrigues, João Mineiro & Mariano e o Raí, que hoje, a gente fala com muito orgulho, é o nosso padrinho. Ele já era amigo meu há muitos anos e foi ele que apresentou a Adriana pra gente. 


Adriana – E o DVD já está pra sair... 


Celina – A gente gravou ele no final do ano passado. E depois da gravação tem todo um trabalho por trás. Então demora um pouco. Depois do carnaval, há qualquer momento... 


Adriana – Estoura a bomba... 


Celina – Agora a gente está com esse trabalho, que saiu há dois meses, além do DVD. É este CD que vem com músicas bem do começo da carreira d’As Marcianas, como “Nossa Melodia”, “Por que brigamos?”, “Marcas”, “Minha Cama Sabe”, “Cara”, as duas músicas que o Jair Rodrigues gravou com a gente, que são “Sonhos Coloridos” e “Quando a Saudade Aperta”. Então foi muito legal. Infelizmente, o que eu mais queria nesse trabalho era a pessoa que mais me ajudou participasse, o Marciano. Mas ele estava viajando, na estrada. 


Num próximo, que já estamos planejando, queremos fazer um acústico, só com violão e voz, e mostrar o real mesmo. Esse é um sonho nosso. 


Adriana – E contar a história real d’As Marcianas. Aí nós vamos contando, falando... porque tem toda uma história. 


Celina – E o povo vê a gente como a gente é por trás do palco. Eu acho que esse DVD está completo: uma coisa simples, onde a gente mostra o que a gente é realmente. É a nossa banda, nós duas e Deus em primeiro lugar.


SertanejOnline – E o DVD tem nome?


Celina – Não. É simplesmente As Marcianas. Na verdade, nunca colocamos títulos. 


SertanejOnline – Como vocês escolhem as músicas do repertório dos álbuns?


Celina – No repertório do DVD, nós pegamos desde o comecinho d’As Marcianas. Ou seja, desde 1986 pra cá. As escolhidas foram todas as que marcaram mesmo, que não tem jeito de não cantar no show. A gente tenta até variar, mas não adianta. Também têm as novas músicas de trabalho, “Tatuagem” e “Deixa Ele Pesca”. 


De compositores, aqueles que sempre acompanharam do começo, nos acompanham até hoje. O Alexandre, da dupla Ataíde & Alexandre, o Rick Sollo, Joel Marques, Fátima Leão... essas pessoas são muito abençoadas, muito iluminadas. Eles não podem faltar, de jeito nenhum.  Mas a gente também da abertura pra gente nova. 


Hoje em dia, os artistas não falam os nomes dos compositores. E é uma coisa que eu faço questão, porque se não fosse o compositor, cadê a dupla ou o artista?


O Nil Bernardes sempre foi produtor, só que não saía o nome dele no disco. A primeira dupla feminina que obrigou e fez questão de colocar o nome dele na produção foi As Marcianas. 


Depois da saída do Nil, a produção do nosso trabalho hoje é minha. Os que acompanham mais é o Pititico, que é o Denilson, e o Carlinhos também, que era nosso músico. 


SertanejOnline – É verdade que a dupla tem uma estilista particular?


Celina – Quem criou isso fui eu. Então, eu queria uma coisa diferente. A minha irmã não concordava muito, na época. De jeito nenhum aceitava. Pelo fato de estarmos correndo atrás, já que ninguém aceitava, a minha mãe fez uma promessa: se nós conseguíssemos gravar um disco pelos nossos méritos, vestiríamos apenas branco. Ela colocou a promessa embaixo dos pés de Nossa Senhora da Aparecida. E eu levei isso com muita fé e seriedade. 


Quando minha irmã saiu da dupla, decidi fazer o que era pra fazer. Então é só branco, ninguém nunca vai ver outras cores na gente. Às vezes, pra não ficar só branco, têm alguns detalhes em prata. 


Depois que eu saio da televisão, eu saio toda suada. É uma energia, uma coisa que eu não sei explicar. Então a gente perde muita roupa por isso. E por ser branca... você olhou, já sujou. Eu costumo dizer que a nossa roupa é descartável. 


Pelo nome As Marcianas, o pessoal no começo tirava sarro do tipo “Cadê as anteninhas?”. Dentro daquilo, eu criei um visual. Então, se você pegar coisas nossas da época, de 1990 pra cá, você iria se surpreender: tudo o que estão usando hoje, a gente já usou ou inventou boa parte. Nossa bijuteria sou eu que faço, sapato eu desenhava... 


Mas, sim, eu já contratei Fernando Pires. Ele fez algumas coisas para As Marcianas. Aliás, de artista sertanejo nós fomos as primeiras com quem ele trabalhou. E depois o Davi começou a fazer várias coisas pra gente, porque o Fernando Pires não tinha um espaço de tempo só pra nós. 


Então, eu lia muito o gibi da Elektra e acabei criando muitas coisas sensuais, não sexuais. Tipo aquelas botas, porque até então a gente usava polainas e sapato, mas isso acabava com nossos pés. Depois o Fernando Pires criou uma plataforma, só que a nossa é diferente das outras, é tudo embutido. 


SertanejOnline -  E qual é o perfil dos fãs de vocês?


Celina – Claro que tem muitos homens, mas os maiores fãs nossos são as mulheres e as crianças. Às vezes nas feiras, que já começam muito tarde, olhamos para a plateia e vemos nenezinhos. Eu nunca vi uma criança chorar em um show nosso, nesses 28 anos de As Marcianas. 


Adriana – Contando uma outra história, que emocionou muito a gente, não vou lembrar onde estávamos agora. Tinha uma menina que estava internada, tomando soro, muito mal, e ela sabia que ia ter show d’As Marcianas. Ela queria muito ir e chorava de vontade. Tivemos que tirar ela do hospital para levar ela no show e interná-la de novo. Emocionou muito a gente. 


Celina – Quando eu me lembro disso me arrepio toda. Claro que os troféus são muito importantes na vida de um artista, mas essa história que a Adriana lembrou bem, não tem dinheiro no mundo que pague. 


Tem pessoas que chegam na gente, garotas novas, que dizem que são fãs nossas. Eu olho e penso “Mas essa menina tem 20 e poucos anos”. E aí elas falam que as mães são superfãs da gente, dizendo: “Desde pequenininha, desde quando eu estava no ventre da minha mãe, ela acompanhava vocês”. E muitas dessas meninas já têm crianças pequenas que já acompanham a gente. 


É por isso que eu falo que a história na vida de um artista vale muito.  


Confira o recado que As Marcianas deixaram para o SertanejOnline:



 



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